O streaming venceu

O streaming venceu? Essa pergunta dominou os debates de Hollywood, as manchetes de tecnologia e as conversas de cinéfilos nos últimos anos. A resposta rápida seria: sim, pelo menos em partes. Mas a história real é mais complexa, mais interessante e surpreendente do que qualquer roteiro de ficção científica poderia prever.

Quando a pandemia fechou as portas de milhares de salas ao redor do mundo em 2020, muitos decretaram o fim do cinema como experiência coletiva. Netflix, Disney+, HBO Max e Amazon Prime Video aproveitaram o momento para lançar seus melhores títulos direto nas telas domésticas. O resultado? Um pico histórico de assinantes. E o cinema? Ficou em segundo plano.

Mas os dados de 2023 e de 2024 contam uma história diferente. O cinema resistiu, se reinventou e, em alguns aspectos, está de volta com força total.

Entender o que realmente aconteceu — e o que ainda está por vir — é essencial para qualquer pessoa apaixonada por sétima arte.

O streaming mudou tudo. E isso não tem volta

Não existe forma honesta de discutir o futuro do cinema sem reconhecer o impacto profundo que o streaming causou na indústria.

Antes de a Netflix dominar o mercado, o ciclo era previsível: estreia nos cinemas, depois DVD, depois TV a cabo. Esse ciclo levava meses. Hoje, uma janela de exclusividade teatral de 45 dias já é considerada longa por muitos estúdios.

O streaming não apenas acelerou a distribuição. Ele mudou o comportamento do espectador.

As pessoas aprenderam a pausar, retroceder, assistir em dupla velocidade, checar o celular durante a cena de clímax dramático. O cinema passou a concorrer não só com outras salas, mas com o sofá, a pizza de sexta à noite e o algoritmo que sempre tem outra série esperando.

Além disso, as plataformas investiram pesado em produção original de qualidade. Roma, de Alfonso Cuarón, ganhou o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro sendo um título Netflix. The Power of the Dog brigou pelo Oscar principal. Belfast, CODA, e outros títulos de streaming passaram a dominar as premiações — algo impensável dez anos atrás.

Esse movimento legitimou o streaming como espaço de arte cinematográfica de alto nível, não apenas de entretenimento de massa.

Oppenheimer
Oppenheimer

Mas o cinema não morreu — ele se transformou

Aqui está o dado que surpreende muita gente: 2023 foi um dos anos mais lucrativos da história recente do cinema mundial.

Barbie e Oppenheimer — o fenômeno batizado de Barbenheimer — arrecadaram juntos mais de 2,4 bilhões de dólares globalmente apenas em julho daquele ano. Guardiões da Galáxia Vol. 3, Missão: Impossível e As Tartarugas Ninja também tiveram desempenho expressivo.

O público voltou às salas. E voltou com apetite.

Mas voltou de forma seletiva. O que ficou claro é que o espectador contemporâneo não vai ao cinema por hábito — vai por experiência. Vai quando o filme promete algo que o streaming não consegue replicar: a tela gigante, o som envolvente, a emoção compartilhada com dezenas de estranhos na mesma sala escura.

Isso representa uma mudança estrutural enorme no mercado exibidor.

A nova lógica do cinema: experiência acima de tudo

O conceito que está redesenhando as salas de cinema ao redor do mundo é simples: se o filme pode ser visto em casa com qualidade razoável, por que o espectador pagaria ingresso, estacionamento e pipoca para assisti-lo numa sala?

A resposta que os exibidores encontraram foi investir em experiência premium.

Formatos como IMAX, Dolby Cinema, 4DX e ScreenX cresceram exponencialmente. Salas com poltronas reclináveis, menus de comida sofisticados e som espacial imersivo transformaram a ida ao cinema em um programa especial — não rotineiro.

No Brasil, esse movimento é visível. Redes como Cinemark, Cinépolis e até circuitos independentes ampliaram suas salas VIP. O ticket médio subiu, mas o público premium cresceu junto.

A lógica se inverteu: em vez de lotar salas com filmes mediocres, o objetivo agora é atrair um público disposto a pagar mais por uma experiência memorável.

Isso funcionou — e está funcionando.

Guardiões da Galáxia Vol. 3
Guardiões da Galáxia Vol. 3

Streaming também enfrenta crise: o ciclo está se fechando

Uma reviravolta que poucos previram: o próprio streaming está em crise.

Após anos de crescimento explosivo baseado em baixos preços e conteúdo abundante, as plataformas descobriram que o modelo não era sustentável. Netflix perdeu assinantes pela primeira vez em 2022 e reagiu com medidas impopulares: aumento de preços, fim do compartilhamento de senhas e criação de planos com anúncios.

Disney+ acumulou prejuízos bilionários por anos seguidos antes de começar a estabilizar. HBO Max passou por uma reestruturação profunda, cortando títulos e fundindo-se com o Discovery. Paramount+ e Peacock lutam para se manter relevantes num mercado saturado.

O resultado para o usuário? Fadiga de assinatura. O conceito de subscrever várias plataformas ao mesmo tempo — o chamado subscription fatigue — levou muitos espectadores a rotacionar assinaturas: assinar por um mês, maratonar o conteúdo, cancelar e ir para a próxima.

Esse comportamento destruiu a previsibilidade de receita de que as plataformas precisavam para continuar investindo em produções de alto custo.

Hollywood repensa a estratégia: o retorno das janelas

Diante desse cenário, algo surpreendente aconteceu: Hollywood voltou a valorizar a janela de exibição exclusiva nos cinemas.

Estúdios que, no auge da pandemia, mandavam filmes direto para suas plataformas agora negociam janelas mais longas com os exibidores.

A Universal, após um conflito público com redes de cinemas, chegou a um acordo histórico para preservar a exclusividade teatral em seus lançamentos principais.

Sony, que por um tempo se destacou vendendo filmes para streaming rapidamente, também ajustou sua estratégia.

Mesmo a Disney, dona do Disney+, reconheceu que alguns filmes precisam do cinema para gerar o hype necessário antes de chegar à plataforma.

O raciocínio é financeiro e mercadológico ao mesmo tempo:

Um filme que fracassa no cinema chega ao streaming estigmatizado.

Um filme que é sucesso nas salas chega ao streaming como evento aguardado.

A bilheteria cria marketing orgânico que nenhuma campanha paga replica.

O cinema, portanto, voltou a ser parte estratégica do funil de distribuição — não um rival do streaming, mas um aliado.

O papel das franquias e da nostalgia

Outro elemento central nessa disputa é o poder das franquias e da nostalgia como motor de público para as salas.

Top Gun: Maverick, em 2022, mostrou que um público adulto — que havia abandonado os cinemas — voltaria para ver uma sequência que fazia sentido emocional. O filme arrecadou 1,4 bilhão de dólares mundialmente e se tornou o maior sucesso da carreira de Tom Cruise.

Avatar: O Caminho da Água reafirmou que James Cameron ainda consegue criar experiências visuais que só fazem sentido na maior tela possível.

E a saga de Homem-Aranha, com Sem Volta para Casa, mostrou que o apelo nostálgico — a reunião de atores e personagens amados — pode gerar frenesi genuíno nas salas de cinema.

Esse padrão revela algo essencial: o cinema ainda detém o monopólio do evento cultural coletivo. Streaming pode ter os melhores filmes, mas raramente cria o fenômeno social de Barbie ou do último Homem-Aranha.

E no Brasil? Como está o mercado nacional

O Brasil merece atenção especial nessa análise. O país é o maior mercado de cinema da América Latina e um dos maiores do mundo em número de espectadores.

Em 2023, o mercado brasileiro de cinema registrou recuperação expressiva, com títulos nacionais como Dois Filhos de FranciscoUm Novo Começo, e blockbusters internacionais, liderando as bilheterias.

O streaming, por sua vez, tem penetração altíssima no Brasil. Segundo dados da Kantar Ibope, mais de 80% dos domicílios com internet no Brasil têm ao menos uma assinatura de streaming. Netflix lidera, seguida de Disney+ e Prime Video.

Mas isso não eliminou o cinema. O brasileiro ainda vai às salas, principalmente quando o filme é grande, barulhento, espetacular ou emocionalmente relevante.

A questão é que o cinema nacional luta numa batalha adicional: competir com produções internacionais de orçamento muito superior. Filmes brasileiros de qualidade precisam, mais do que nunca, de uma proposta narrativa diferenciada para atrair o público às salas.

O futuro: coexistência inteligente ou nova guerra?

A grande questão que permanece é: streaming e cinema vão coexistir de forma saudável ou estamos caminhando para um novo conflito?

A tendência mais clara, observada pelos principais analistas do setor, aponta para uma coexistência segmentada: o cinema vai focar em filmes-evento, ou seja, grandes produções, continuações aguardadas, experiências visuais que justificam a saída de casa.

O streaming, por sua vez, vai dominar o conteúdo cotidiano: séries, documentários, filmes de médio orçamento e produções de nicho que teriam dificuldade de viabilizar uma carreira comercial nas salas.

O cinema de arte e os festivais vão encontrar novos modelos híbridos, combinando exibição presencial e janelas digitais para maximizar alcance.

Esse equilíbrio não é frágil. É, na verdade, bastante racional. Cada formato está sendo otimizado para o que faz melhor.

Conclusão: o streaming venceu? Depende do que você chama de vitória

Voltando à pergunta inicial: o streaming venceu?

Em número de horas consumidas por espectador, sim — o streaming é hoje o principal meio de consumo audiovisual no mundo.

Em capacidade de criar fenômenos culturais coletivos, não — o cinema ainda é insubstituível nesse aspecto.

Em rentabilidade por título, o cinema ainda supera o streaming para os grandes lançamentos.

Em acessibilidade e democratização do conteúdo, o streaming é imbatível.

A verdade é que não existe um vencedor único. O que existe é uma transformação profunda na forma como consumimos histórias — e isso é, para qualquer cinéfilo de verdade, uma notícia extraordinária.

O cinema sobreviveu ao rádio, à televisão, ao VHS, ao DVD e ao streaming. Não porque é teimoso, mas porque oferece algo que nenhuma tecnologia conseguiu replicar: a experiência de ver o mundo em grande, no escuro, com estranhos, e sair diferente de como entrou.

Se você ainda não foi ao cinema este mês, esse artigo é o seu convite. Escolha um título que mereça a tela grande e vá. Algumas histórias precisam ser vividas — não apenas assistidas.

Sobre o Autor

Gerson Menezes
Gerson Menezes

O objetivo do Autor não é o de concentrar-se na linguagem rebuscada do tecnicismo cinematográfico, mas de apresentar o que há de melhor (ou de pior) na filmografia nacional e internacional, e concentrar-se no perfil dos personagens. As análises serão sempre permeadas pela vertente do humanismo, que, segundo o Autor, é o que mais falta faz ao mundo em que violência e guerra acabam compondo o cenário tanto dos filmes como da realidade de inúmeros países, entre os quais o Brasil.

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