Filme espanhol de grande impacto, A Virgem Vermelha e a opressão que ela sofre se constituem na menor sinopse possível dessa produção, que tem um excelente elenco e é tecnicamente bem realizada.
Quando há opressão de um lado, há um opressor de outro, obviamente.
Na verdade, podemos adiantar que o filme é sobre o oprimido, o radicalismo, o extremismo e a obsessão.
E, evidentemente, sobre as consequências nefastas disso tudo, provocando no espectador reações em conformidade com as convicções que cada um tem sobre esses temas.
Uma Virgem Vermelha oprimida
De que lado se mostra a opressão no filme? De todos os lados.
Os socialistas lutam contra a opressão que eles veem no mundo capitalista. Que é real e inegável.
Mas há apenas homens nas reuniões do partido, numa época em que as mulheres são subjugadas a um sistema inaceitável.
E esse sistema opressor independe das ideologias. Ele está de todos lados.
Inclusive, é óbvio, no capitalismo rejeitado pelos socialistas.
E fica latente a indagação: como conquistar o equilíbrio, diante de toda a realidade vivida?
Na tela a opressão contra as mulheres
As reuniões dos políticos, por sinal, acontecem em um recinto tão fechado em si mesmo que os homens olham com desconfiança para as mulheres que ousam entrar no ambiente.
O salão é tão hermético em sua concepção que nem sequer banheiro para as mulheres existe.
Em poucas palavras, A Virgem Vermelha é condicionada pela mãe a se tornar um gênio sobre a sexualidade feminina. Desde que não a exerça.
A mãe, que luta contra a opressão imposta pelos homens às mulheres, se transforma na figura perfeita da opressora contra a filha.
Oprime-se a si mesma, por sinal. E escolhe um padre para gerar a filha que ela quer criar conforme o seu modelo.
Sendo assim, proporciona a si mesma que será guardado total segredo sobre seu ato sexual.
É difícil fazer uma resenha desse filme sem cometer spoiler.
Isto sem contar a obrigação profissional e moral de manter em total sigilo o desfecho, que resume toda a história.
A Virgem Vermelha e a opressão de todos os lados
A Virgem Vermelha (La Virgen Roja) estreou na Espanha em setembro de 2024 e já estava na Prime Vídeo em dezembro do mesmo ano.
É apresentado como “baseado numa história real”, mas custa crer que tenha sido real, tal o absurdo dos fatos nesse período da história.
A menina, tornada jovem sem o direito de viver sua juventude, é educada pela mãe (se assim podemos chamar) para se transformar na mulher do futuro.
O projeto, rigidamente concebido pela mãe, Aurora Rodriguez (interpretada por Najwa Nimri) é de transformar a filha no modelo ideal contra a opressão dos homens, numa sociedade machista.
Elenco traduz o enredo com maestria
Dirigido por Paula Ortiz, A Virgem Vermelha tem no elenco um de seus pontos fortes, a ponto de passar ao espectador o sentimento de angústia que transita por todo o enredo.
A filha, Hildegard Rodriguez (vivida por Alba Planas), por sua vez, acaba se revelando, ainda muito jovem, uma escritora brilhante, capaz de produzir (em ritmo incansável) verdadeiros tratados sobre a sexualidade feminina.
O resultado é tão perfeito que, na primeira tentativa de publicação, o editor se recusa a acreditar que tenha sido a filha de Aurora a autora dos textos.
A obsessão da mãe (que transfere ao espectador a repulsa a cada gesto seu) sintetiza, de forma acentuada, o lado mais sombrio de uma sociedade repressora e seus desfechos trágicos.
Ela manipula a filha para que veja no amor algo falso ou desprezível, que a filha jamais deve sentir por qualquer pessoa, muito menos por um homem.
Aliás, manipula não apenas a filha como também o jovem ativista socialista Abel Vilella (Patrick Criado), por quem Hildegart se apaixona.
E com quem, obviamente, Hildegart deseja viver a paixão e realizar os desejos que seu corpo, na evolução natural dos 16 para os 18 anos, passa a se revelar como incontroláveis.
Roteiro intenso e inquietante
Ao lado de um roteiro intenso, tenso e inquietante, A Virgem Vermelha desfila aos olhos do espectador um ritmo que prende do início ao fim, em que até mesmo os cenários transmitem a repugnante opressão.
Em nome de um projeto obsessivo, quem mais pretende rejeitar a opressão se torna a mais opressora, a ponto de exercer injustiça contra um inocente.
Sem apelações ou exageros
A Virgem Vermelha dosa bem as sutilezas. Nada é mostrado de forma explícita ou exagerada.
Tudo é apresentado ao espectador em cenas que representam, com essa sutileza, aquilo que se pretende transmitir.
Como deixamos evidente desde o início, A Virgem Vermelha não é um filme para ser contado, mas assistido.
Cada espectador, dentro de suas próprias concepções de justiça, de liberdade e de amor, irá se confrontar com suas próprias reações diante de tudo o que lhe é apresentado no filme.
Com apenas 114 minutos de duração, A Virgem Vermelha, diante da angústia que transmite, parece até mais longo.
Mas não a ponto de levar o espectador a deixar de assisti-lo até o desfecho final, igualmente impactante.
De nossa parte, apenas uma queixa que se mostra inevitável em relação a praticamente todos os filmes exibidos nas plataformas de streaming.
Essa queixa diz respeito a uma dúvida crucial: até que ponto é tão difícil compreender que letreiros devem ser mantidos na tela por tempo suficiente para que o espectador consiga ler sem ter que retroceder a película?
Sobre o Autor
0 Comentários