
Foi neste 12 de janeiro de 2026 que o cinema brasileiro, com um thriller político, viveu uma daquelas cenas raras em que o reconhecimento internacional parece simultaneamente simbólico e inevitável.
O Agente Secreto, dirigido por Kleber Mendonça Filho, conquistou duas estatuetas no Globo de Ouro: melhor filme em língua não inglesa e melhor ator em filme de drama para Wagner Moura.
A dobradinha não é apenas um marco de premiação. Na verdade, funciona como chancela para um tipo de filme que exige mais do espectador do que consumo rápido: um thriller político de atmosfera, de textura histórica e de tensão moral, que usa o gênero para discutir mecanismos de poder e sobrevivência no Brasil.

Por que os 2 Globos de Ouro importam (e o que eles dizem sobre o filme)
Quando uma produção cinematográfica vence como melhor filme em língua não inglesa, a premiação está reconhecendo a obra como conjunto: direção, roteiro, ritmo, mise-en-scène, qualidade de som, elenco, e a maneira como tudo se articula.
Já o prêmio de melhor ator em filme de drama costuma funcionar como holofote para a “porta de entrada” de muitos espectadores: a performance que sustenta a experiência.
No caso de O Agente Secreto, a combinação dos dois prêmios sugere algo específico: o Globo de Ouro não premiou apenas a “importância” do filme ou o “tema” brasileiro. Premiou, na realidade, o cinema do filme. E isso é um diferencial relevante quando falamos de obras políticas, frequentemente reduzidas a sinopse e contexto.
Direção de Kleber Mendonça Filho: suspense como linguagem, não como ornamento
Kleber Mendonça Filho construiu uma carreira marcada por um olhar que transforma espaço e memória em dramaturgia.
Em O Agente Secreto, esse traço se organiza dentro de um thriller político que não se apoia apenas em reviravoltas, mas em pressão atmosférica: a sensação de que algo está errado antes mesmo de sabermos exatamente o quê.
O diretor trabalha o gênero com uma precisão que evita dois caminhos fáceis:
Não vira ação “internacionalizada” genérica, em que a história poderia se passar em qualquer lugar.
Não vira filme-panfleto, que tenta resolver conflitos complexos com slogans.
Aqui, a política é vivida como condição do cotidiano: o perigo está no ar, nas regras não ditas, nos silêncios, nos lugares que parecem “normais” até revelarem um tipo de controle invisível.
O suspense, portanto, não é só o que acontece, é o modo como o mundo funciona. E isso é o que torna O Agente Secreto especialmente eficaz: ele não “ilustra” um período ou uma crise. Ele constrói um ecossistema de medo que pode resultar em clima de suspeita, em sensação de cerco, na psicologia do controle…
O gênero (thriller/espionagem) usado para falar de medo, vigilância e sobrevivência
É tentador querer classificar o longa apenas como filme de espionagem — e, em certo nível, a etiqueta ajuda a orientar expectativas.
Mas O Agente Secreto opera num registro mais específico: um thriller de paranoia, em que o inimigo nem sempre tem rosto e a ameaça raramente precisa se exibir.
Em filmes assim, a ação mais importante costuma ser interna: o cálculo constante do personagem, a leitura do ambiente, a suspeita de que tudo — uma ligação, um encontro, um trajeto — pode ter sido previsto por alguém.
O filme captura uma ideia central: quando a vigilância se torna linguagem social, a vida cotidiana começa a parecer um labirinto.
O personagem se move como quem pisa em terreno minado — não porque há explosões a cada esquina, mas porque qualquer escolha pode ter consequência.
Wagner Moura: a atuação que organiza o filme por dentro
A vitória de Wagner Moura no Globo de Ouro é coerente com o tipo de trabalho que O Agente Secreto pede do protagonista: carregar informação sem transformar tudo em explicação.
Em thrillers políticos bem-sucedidos, o ator precisa dominar uma arte difícil: parecer que sabe mais do que está dizendo, mas sem transformar isso em pose.
Moura trabalha a ambiguidade com controle: há cansaço, há prontidão, há instinto — e, principalmente, há contradição.
O que torna sua performance “premiável” não é uma coleção de cenas explosivas (embora o gênero ofereça tensão), e sim a capacidade de manter o espectador preso a um homem que parece estar sempre processando duas coisas ao mesmo tempo:
- 1. O que está acontecendo de fato
- 2. O que pode estar acontecendo por baixo
Essa duplicidade sustenta o suspense. E é também o que aproxima o filme do drama: o corpo do personagem denuncia que ele está pagando um preço por permanecer funcional dentro de um sistema doente.

Enredo (sem spoilers): quando a missão vira dilema moral
Sem revelar pontos decisivos, O Agente Secreto acompanha um homem envolvido com operações discretas em um Brasil marcado por clima de perseguição e controle, onde redes de informação, interesses do Estado e alianças instáveis se cruzam.
O protagonista precisa navegar em um território onde “verdade” é instrumento — e onde a sobrevivência depende tanto de habilidade quanto de silêncio.
O filme trabalha a narrativa em camadas: o espectador entende o suficiente para seguir, mas é mantido num estado contínuo de alerta, como se sempre faltasse uma peça. E essa peça, quando chega, costuma reconfigurar as anteriores.
Esse tipo de construção é fundamental para o que o longa quer dizer: em ambientes de paranoia, a informação nunca é neutra, porque circula como arma, moeda e ameaça, dependendo de quem a controla.
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