A Casa dos Prazeres

O filme A Casa dos Prazeres (La Maison, título original) merecia outro título em Português, para não ser encarado como um simples drama erótico. Afinal, muito além das cenas calientes que atraem os aficionados pelo gênero, o filme dirigido por Anissa Bonnefont acaba resultando num perfil realista da vida das mulheres que se prostituem.

Ao contrário das cenas em que prevaleça erotismo e nudez (presentes sem exagero, mas como consequência do contexto), Anissa Bonnefont, que também roteirizou o filme, com base no livro autobiográfico da escritora francesa Emma Becker, mostra sem apelação o clima de riscos, violência e submissão forçada que caracterizam a conhecida “profissão mais antiga” do mundo.

O desafio da escritora para ser fiel aos fatos

Emma (Ana Girardot), que adotou o codinome Justine para trabalhar no bordel,  é uma escritora francesa de 27 anos que se propõe ao desafio de tornar-se prostituta em um bordel em Berlim (Alemanha), para escrever seu próximo livro, destinado exatamente a retratar, de forma realista, a vida na prostituição.

Enfrentando a reação indignada da irmã, Madeleine (interpretada por Gina Jimenez) e de Stéphane (Yannick Renier), o namorado casado que se preocupa com os riscos que Emma irá correr, ela se mostra convencida de que somente colherá uma visão realista para o livro que pretende escrever caso persista em sua decisão de viver na própria pele essa realidade.

Com ótima fotografia assinada pelo francês Yann Maritaud, as cenas dessa realidade se sucedem: Emma (ou Justine) enfrenta a agressividade de um cliente que a obriga a cheirar cocaína e que se diz dono do corpo dela para fazer o que bem entendesse.

E convive também com o clima de solidão, de isolamento, de desilusão e das incompatibilidades amorosas de clientes que buscam não apenas sexo, mas também ajuda, compreensão e até consolo e “lições” com as profissionais do sexo, tentando superar a vida de carência, abandono e de frustrações pessoais que fazem parte da cruel realidade em que se sentem mergulhados.

São essas “profissionais do sexo”, por sua vez, que extravasam sua ojeriza aos homens que elas desprezam e xingam nas conversas entre elas, e que ao mesmo tempo possibilitam que elas “escapem” da realidade vivida nos empregos formais onde também são exploradas por salários miseráveis em jornadas exaustivas que as impedem de ter uma vida social e conviver com os próprios filhos.

No final das contas, em vez de erotismo, o que prevalece no filme é o clima quase que depressivo da vida de tantos homens que procuram essas profissionais em razão de dramas pessoais e conjugais que os aprisionam.

Filme A Casa dos Prazeres

Bastidores da produção

A roteirista e diretora Bonnefont foi escolhida pela escritora Emma Becker por ser uma cineasta familiarizada com documentários (Wonder Boy, sobre o estilista Olivier Rousteing, e Nadia, sobre uma refugiada afegã), com um “olhar privilegiado para a realidade”.

Emma Becker chegou a descartar que o filme A Casa dos Prazeres fosse dirigido por um homem, porque considerava essencial a abordagem feminina para a história.

A protagonista Ana Girardot e as demais integrantes do elenco passaram por workshops intensos para garantir mais autenticidade ao retratarem as relações entre as profissionais do sexo e seus clientes.

Formas de agir e de falar foram exaustivamente trabalhadas, e preponderou a determinação de evitar julgamentos morais para melhor reproduzir a complexidade emocional das personagens.

 As cenas do bordel que ambientam a trama de A Casa dos Prazeres foram gravadas em locações reais de Berlim, contando sempre com a consultoria de ex-profissionais do sexo para garantir realismo.

O filme gerou debates sobre feminismo e prostituição, especialmente pela abordagem de não condenar a atividade. Bonnefont defendeu que a obra “não romantiza a prostituição, mas humaniza as mulheres envolvidas”.

Controvérsias se tornaram inavitáveis. O filme foi elogiado pela coragem na abordagem do tema e ao mesmo tempo criticado pelos que consideraram as cenas muito explícitas.

Em muitos trechos, destacou-se o fundo musical de Jack Bartman, conferindo maior plasticidade às cenas.

O filme A Casa dos Prazeres está disponível para streaming online nas plataformas PrimeVideo e Reserva Imovision.

Pode ser assistido diretamente acessando o catálogo do filme pelo Prime Video ou pela plataforma especializada Reserva Imovision.

Para quem quer um filme pornô, recomendamos que faça outra escolha.

Sobre o Autor

Gerson Menezes
Gerson Menezes

O objetivo do Autor não é o de concentrar-se na linguagem rebuscada do tecnicismo cinematográfico, mas de apresentar o que há de melhor (ou de pior) na filmografia nacional e internacional, e concentrar-se no perfil dos personagens. As análises serão sempre permeadas pela vertente do humanismo, que, segundo o Autor, é o que mais falta faz ao mundo em que violência e guerra acabam compondo o cenário tanto dos filmes como da realidade de inúmeros países, entre os quais o Brasil.

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