
A um só tempo, quase todo mundo está assistindo à série Adolescência e suas consequências.
Assiste porque a produção já reina entre as mais vistas atualmente na Netflix, algo que, obviamente, está chamando a atenção de quem acessa… a internet.
Mas, será que as repercussões e consequências estão indo pelo caminho certo?

É preciso divulgar sinopse?
Bom, se ainda é preciso divulgar a sinopse para quem mora em Marte, vamos lá.
Não para Marte, mas para a sinopse: um menino de 13 anos é preso sob a acusação de ter assassinado sua colega de escola.
As cenas iniciais já dão a ideia do que vem logo a seguir.
A série começa com a polícia, armada até os dentes, como se diz, arrombando a porta da casa para prender o menino suspeito de cometer assassinato. E ele está encolhido na cama, apavorado.
A única coisa que ele diz é que não fez nada. Mas os policiais deixam claro que ele terá que ser encaminhado à delegacia, porque as provas são consistentes
O meio é a mensagem?
Quem fez curso de jornalismo lá pelos anos 1970 já conhece essa célebre frase de Marshall McLuhan, o canadense que despontava como o guru, educador, intelectual, filósofo e teórico citado em 10 de cada 10 faculdades de Comunicação no Brasil inteiro.
A diferença é que, numa época em que não existia internet nem redes sociais, McLuhan não usava interrogação para dizer sua famosa frase.
Ele simplesmente decretava, sem meias palavras, que o meio é a mensagem. E, com base nisso, nós, jovens estudantes de jornalismo à época, compreendíamos que ele se referia ao poder da mídia.
O meio e a mensagem agora estão na berlinda
Como já se previa, as redes sociais e a própria internet entraram na berlinda, diante da repercussão da série.
Vão fazer companhia à Inteligência Artificial, cujo tema é simplesmente inevitável para quem acessa, adivinhem… a internet.
Não estamos, neste artigo, preocupados com o detalhe técnico que praticamente toda a crítica especializada tem ressaltado: o fato de nas filmagens ter sido utilizada a técnica de filmagem de plano-sequência, sem cortes.
O que nos interessa é a série Adolescência e suas consequências. Ou seja: os erros e acertos que poderão surgir no que se refere à educação de jovens, que estão vivenciando uma das fases mais difíceis da vida: justamente a adolescência.
Quem está por trás da mídia?
Uma das frases que li nas diversas avaliações críticas foi a seguinte: a série Adolescência mostra a influência nociva das redes sociais, entre outros assuntos que permeiam a juventude atual.
Os sofisticados leitores deste site para quem gosta de cinema certamente já sabem aonde quero chegar.
É o meio que é a mensagem, ou será que é, mais precisamente, quem está por trás do meio?
Temos uma confissão a fazer: não acreditamos mais nisso a que chamam de humanidade.
Embora não me sinta preso a nenhuma religião, tenho comentado com seletos amigos a minha convicção de que só uma intervenção divina poderá corrigir os caminhos dessa que chamam de humanidade, cada vez mais desumana.

A culpa é dos adolescentes?
Tanto os meios de comunicação como a própria Inteligência Artificial poderiam exercer um papel importantíssimo na vida de todos nós. Importantíssimo mas não definitivo…não fossem os desvios que a dita humanidade impõe a tudo o que se possa inventar de útil.
Crianças têm sido vítimas, inclusive fatais, de desqualificados que usam a comunicação e as redes sociais para divulgar jogos e desafios aterradores, com desastrosas consequências para aqueles que são doutrinados a segui-los.
Não é raro encontrar, nos noticiários, os casos de crianças e adolescentes com terríveis problemas de saúde, sequelas irreversíveis ou mesmo que perderam o dom precioso da vida por terem seguido à risca o que esses bandidos propagam pelas redes sociais.
Isto sem contar a frequência com que a rotulada liberdade de expressão é usada para propagar o ódio, a mentira, os golpes e a maldade em todas as suas deletérias variantes.
O retrato da humanidade
No exato dia em que escrevo este artigo, uma mulher foi linchada e morta em decorrência de um boato, e um pai matou o filho de apenas cinco anos jogando-o do alto de uma ponte.
Não sei o que acham os que me leem, mas penso, diariamente, onde posso encontrar energia para confiar numa suposta humanidade de supostos homens de bem que habitam o noticiário do dia a dia com suas explícitas demonstrações de maldade e covardia.
É obvio que jamais podemos generalizar, mas acontece que esses fatos têm se multiplicado, assustadoramente, e é igualmente óbvio que não temos como ignorá-los.
Quando o meio e a mensagem se chocam
A Inteligência Artificial pode ser usada como uma ferramenta para produzir coisa boa ou coisa ruim.
Mas os bilionários poderosos querem aperfeiçoá-la, isso na visão deles, para então dominarem o mundo.
Hoje as pessoas viajam de avião. E ninguém contesta a utilidade desse meio de transporte.
No entanto, quando viu sua invenção ser usada na guerra, Santos Dumont entrou em depressão. E acabou cometendo suicídio.
Quem pode duvidar de que a Inteligência Artificial será usada nas guerras?
Não se pode culpar a Imprensa pelas notícias ruins. Mas podemos culpar a Imprensa por eventuais consequências nefastas de seu uso de forma sensacionalista. Ou mentirosa.
Adolescência, suas repercussões e riscos
As inevitáveis repercussões da série Adolescência podem ser boas ou ruins, obviamente, como tudo que se coloca nas mãos da dita humanidade.
Uma das passagens mais tocantes da série é quando fica exposto todo o peso do acontecimento na família do adolescente.
Pai, mãe e filha se perguntam como irão levar a vida adiante, tendo que enfrentar esse acontecimento que impactou todos eles.
Surge também a inevitável dúvida entre pai e mãe sobre se fizeram algo de errado na criação dos filhos.
E sobre isso lançaremos um alerta mais adiante.

Uma tarefa que sempre exige
As pessoas se preparam para um vestibular, para um concurso público, para arranjar um bom emprego e até para fazerem uma viagem de férias.
Muitos, no entanto, negligenciam quando o assunto é educação dos filhos. E não estamos culpando os pais neste caso da série. Calma.
Educar os filhos é uma tarefa que se torna ainda mais difícil diante das dificuldades financeiras que assolam grande parte das famílias brasileiras. Pais e mães, diante disso, permanecem durante muito mais tempo fora de casa. Mas sobre isso também falaremos adiante.
A série não traça um perfil indesejável ou explicitamente reprovável por parte do personagem Eddie (vivido por Stephen Graham, que, junto com Jack Thorne, criou a série inglesa).
Eddie é o pai do jovem acusado, vivido pelo ator estreante Owen Cooper, que interpreta o adolescente Jamie Miller com brilhantismo, demonstrando um promissor início de carreira.
As relações pais e filhos
Esse tema sobre o papel dos pais vem à tona, no decorrer da série, na figura do policial que investiga o caso, interpretado por Ashley Walters.
Empenhado em encontrar a arma do crime e em desvendar as motivações do homicídio, o policial age de forma ríspida com o próprio filho.
Este, por sua vez, se sente intimidado ao tentar falar sobre o que estaria em torno da atitude do colega da escola preso sob a suspeita de assassinato.
A certa altura, diante do tom de voz e das atitudes agitadas e meio ríspidas do pai, o menino observa, ao ser chamado de filho, que o pai nunca se dirigiu a ele usando esse simples termo.
“Você nunca me chamou de filho”, disse o estudante, que acabou sensibilizando o pai. E o pai acordou (tardiamente?)e finalmente resolveu chamar o menino para lancharem juntos, tentando ser amigável e bem-humorado.
Orgulhosamente excluído
O risco das interpretações em relação à série está no surgimento das visões retrógradas que, presumivelmente, passarão a interpretar o discurso da falta de limites como pretexto para castigos físicos.
Não se pode imaginar que isso seja tão difícil assim, numa época em que a incoerência e a insensatez parecem predominar.
E muita gente (gente?) já começa a falar em palmatória e a pronunciar a velha frase: “Na minha época não era assim…”
Conto minha experiência própria, em que fui excluído de um grupo do WhatsApp por contrapor-me à ideia apregoada de que o método de administrar limites seria essa velha palmatória e as indefensáveis surras.
Aliás, senti-me orgulhosamente excluído desse grupo, por não precisar mais conviver com supostos humanos que preferem uma chibata na mão do que uma boa ideia no cérebro. Se é que eles o têm.
Muito mais que uma conversa
Estou plenamente ciente de que este é um site dedicado a cinema.
Mas deixo, pelo menos temporariamente, a crítica cinematográfica de lado para analisar Adolescência e suas consequências, para reflexão dos que já assistiram ou pretendem assistir.
A série merece ser vista. A direção de Philip Barantini imprime um ritmo que prende a atenção e o elenco é amplamente elogiável.
Exatamente por ser uma produção que alcançou grande sucesso logo quando foi lançada, certamente estará (como, aliás, já está) cercada de opiniões de vários matizes que vão de obscuras interpretações a esclarecidas avaliações.
Pais e mães não têm tempo para conversar com os filhos? Para dar-lhes carinho, atenção? Para pregarem o amor, a paz, a fraternidade e tudo que seja de bom? Pois então que arranjem! Porque, se não o fizerem, os filhos ficarão, ou permanecerão, submergidos no imenso lamaçal dos maus.
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