
A HBO sempre foi conhecida por ultrapassar limites. Mas, e quando uma série, como The Deuce, cruza a linha entre autenticidade e exploração?
Originalmente uma série dramática de televisão norte-americana, The Deuce prometia retratar a indústria pornográfica de Nova York com seriedade histórica, porém se perdeu em suas próprias contradições. O que começou como drama de época terminou gerando mais polêmicas pelas cenas explícitas do que pelo conteúdo narrativo.
Situamos, neste relato, como The Deuce, que se pretendia uma reconstituição até bem curiosa de uma época, acabou navegando entre aclamação crítica e controvérsia, recheada de bastidores turbulentos e decisões questionáveis de produção que desencadearam o debate sobre até qual limite a televisão premium pode ir em nome da arte.

The Deuce: a promessa ambiciosa que se excedeu
The Deuce estreou em setembro de 2017 com credenciais impecáveis. Criada por David Simon e George Pelecanos, a dupla responsável por The Wire, a série tinha tudo para se tornar referência. O elenco reunia James Franco em papel duplo como gêmeos, Maggie Gyllenhaal como prostituta que vira diretora de filmes adultos, e um time de atores dedicados a construir personagens complexos.
A proposta era mapear a transformação da Times Square entre 1971 e 1985, época em que a pornografia migrou de projeções clandestinas para uma indústria lucrativa de filmes em película.
David Simon prometia explorar as dinâmicas de poder, o feminismo emergente e as mudanças sociais sob o prisma do sexo comercial. De quebra, o espectador ainda ganharia o cenário curioso da evolução tecnológica a partir de um tempo em que as volumosas mídias de material plástico começam a surgir como grande novidade.
O orçamento robusto permitiu recriar minuciosamente a Nova York dos anos 70. Figurinos autênticos, cenários detalhados e uma trilha sonora impecável transportavam o espectador para aquela era de transição cultural. A fotografia capturava tanto a sujeira das ruas quanto o brilho artificial dos clubes noturnos.
Nas primeiras críticas, os elogios dominaram. Publicações especializadas destacaram a coragem em abordar tema tabu com seriedade dramática. Maggie Gyllenhaal recebeu indicações ao Globo de Ouro e Emmy. Tudo indicava que The Deuce repetiria o sucesso de The Wire como retrato social de uma América marginalizada.

Bastidores conturbados e escolhas polêmicas
Desde o início, a produção enfrentou dilemas éticos. Como retratar a exploração sexual sem explorar as próprias atrizes? A equipe contratou consultoras da indústria adulta, incluindo ex-profissionais do sexo, para garantir autenticidade. Coordenadoras de intimidade supervisionavam as filmagens de nudez, prática ainda rara em 2017.
Porém, as tensões apareceram rapidamente. Atrizes relataram desconforto com a quantidade de cenas de nudez exigidas. Embora contratos especificassem o que seria filmado, algumas sentiram que a repetição e duração das sequências ultrapassavam o necessário narrativamente. A fronteira entre documentar exploração e perpetuá-la começou a desaparecer.
James Franco, protagonista e produtor executivo, tornou-se o centro da maior controvérsia. Em janeiro de 2018, pouco após ganhar o Globo de Ouro por seu trabalho na série, cinco mulheres o acusaram de comportamento sexual inapropriado. Duas eram estudantes de sua escola de atuação. As alegações incluíam pressão para cenas de nudez não acordadas e ambiente profissional abusivo.
A HBO emitiu comunicado breve afirmando que levava as acusações a sério. David Simon defendeu Franco inicialmente, mas o clima no set mudou. A terceira temporada, que viria a ser a última, teve participação reduzida do ator. Em 2019, Franco admitiu em entrevista ter dormido com alunas de suas aulas de atuação, reconhecendo o desequilíbrio de poder.
O escândalo Franco contaminou a receptividade da série. Críticos começaram a questionar se um homem acusado de exploração deveria protagonizar drama sobre exploração feminina. A ironia se tornou impossível de ignorar.
O dilema das cenas explícitas
The Deuce mostrava sexo oral, penetração simulada e nudez frontal completa com frequência incomum até para padrões HBO. Cada episódio continha múltiplas cenas de sexo, algumas durando minutos. A justificativa era sempre o realismo. Afinal, a série tratava literalmente de sexo como mercadoria.
Mas a repetição gerou questionamentos legítimos. Será que mostrar uma décima cena de sexo transacional adicionava camadas dramáticas? Ou havia certo voyeurismo disfarçado de arte? A linha entre retratar e glorificar se tornava cada vez mais nebulosa.
Comparações com outras séries surgiram naturalmente. The Handmaid’s Tale abordava violência sexual com impacto devastador usando menos explicitação. Mad Men capturava machismo corporativo sem precisar de nudez constante. A famosa série The Crown dissecava poder político mantendo protagonistas vestidos. The Deuce parecia confundir maturidade temática com quantidade de pele exposta.
Defensores argumentavam que censurar o sexo, enquanto violência gráfica dominava a TV, seria hipocrisia puritana. Game of Thrones desmembrava corpos semanalmente sem o mesmo escrutínio. Por que sexo consensual incomodava mais que decapitações?
O contra-argumento apontava contexto. Game of Thrones não alegava documentar história real de grupos marginalizados. No entanto, The Deuce reivindicava dar voz a trabalhadoras sexuais, mas frequentemente as reduzia a corpos em performances mecânicas. A câmera se demorava em closes que pareciam mais destinados a exibicionismo cinematográfico do que a iluminação dramática.
A questão transcendia moralismo. Tratava-se de escolhas narrativas. Cada minuto de tela serve a história ou distrai dela? The Deuce frequentemente escolhia a segunda opção.

Repercussão crítica dividida
A primeira temporada recebeu 93% de aprovação no Rotten Tomatoes. Críticos elogiaram ambição, atuações e reconstrução histórica. Comparações com The Wire eram inevitáveis e geralmente favoráveis. Simon parecia ter um novo feito notável, mais uma vez, criando mosaico urbano denso e humanizado.
A segunda temporada, lançada em setembro de 2018, encontrou ambiente diferente. O movimento #MeToo ganhara força monumental. As acusações contra Franco estavam frescas. Audiências e críticos assistiam com olhos mais céticos. A aprovação caiu para 89%, ainda alta – portanto – mas sinalizando mudança.
Publicações feministas foram particularmente duras. Artigos questionaram se homens poderiam contar histórias de trabalhadoras sexuais sem perpetuar olhar masculino. Por mais bem-intencionado que Simon fosse, sua perspectiva carregava pontos cegos (ou que enxergavam demasiadamente…) A série raramente explorava a vida das personagens femininas fora do trabalho sexual. Elas existiam principalmente em relação aos homens ou à indústria.
Espectadores comuns também se afastaram. Os números de audiência declinaram consistentemente. Muitos citavam desconforto com volume de conteúdo sexual. Não era questão de escandalizados puritanos, mas de saturação. A série se tornara exaustiva de assistir.
A terceira e última temporada, em 2019, teve recepção morna. Aprovação de 88% no Rotten Tomatoes mascarava críticas mais afiadas no texto das resenhas. Elogiavam a conclusão satisfatória mas notavam que The Deuce nunca alcançara potencial prometido. Permanecia como série respeitável que poderia ter sido extraordinária.
A ausência de grandes prêmios confirmava a percepção. Enquanto contemporâneas como The Handmaid’s Tale e The Crown colecionavam Emmys, The Deuce raramente passava de indicações em categorias técnicas. Gyllenhaal foi a única destacada consistentemente, por merecido reconhecimento pela performance corajosa.
Representação e responsabilidade
Um dos objetivos declarados da série era humanizar trabalhadoras sexuais. Mostrar mulheres como agentes de suas vidas, não vítimas passivas. Intenção louvável que a execução comprometeu parcialmente.
Candy, personagem de Gyllenhaal, recebia desenvolvimento consistente e ousado para a época, com repercussões familiares que abalaram a personagem. Sua jornada, indo de prostituta a cineasta pornô e empresária independente oferecia arco satisfatório. Mas outras personagens femininas permaneciam unidimensionais. Existiam para ilustrar pontos sobre a indústria, não como pessoas completas.
A violência contra as mulheres na série era gráfica e frequente. Espancamentos, estupros e assassinatos pontuavam as temporadas. Novamente, a justificativa era realismo. Aquela era a realidade das ruas. Mas a câmera se demorava nessa violência de forma que muitos consideraram gratuita.
Ativistas pelos direitos de trabalhadoras sexuais se dividiram. Algumas elogiaram a tentativa de mostrar a complexidade da profissão, refutando narrativas simplistas de resgate. Outras criticaram o foco excessivo em violência e trauma, reforçando estereótipos de que trabalho sexual inevitavelmente leva à degradação.
A série também ignorava amplamente trabalhadoras sexuais trans, comunidade central no Times Square histórico. Algumas apareciam em papéis menores, mas suas histórias permaneciam nas margens. Para um drama que se propunha abrangente, era omissão significativa.

The Deuce e seu legado controverso
The Deuce teve sua conclusão em outubro de 2019, após três temporadas e 25 episódios. Não houve campanhas de fãs por continuação. A série simplesmente terminou e foi rapidamente esquecida nas conversas culturais. Mas, até a data em que escrevemos, permanece em exibição na HBO MAX.
Diferente de The Wire, que ganhou status cult e permanece relevante, décadas depois, The Deuce não gerou o mesmo impacto duradouro. Não entrou no panteão das grandes séries HBO. Ocupou espaço intermediário de produção bem-feita que não justificou completamente sua existência.
As lições de The Deuce são valiosas para a indústria. Demonstrou que boas intenções não bastam. Que consultores e coordenadores de intimidade são essenciais, mas não resolvem problemas estruturais de perspectiva. Que audiências estão cada vez mais sofisticadas.
A série também expôs hipocrisia na televisão premium. Canais como HBO se orgulham de ultrapassar limites, mas raramente questionam quais limites e por quê. Sexo explícito é transgressor ou simplesmente vendável? The Deuce alegava o primeiro, mas frequentemente praticava o segundo.
Atores e equipe seguiram em frente. Gyllenhaal continuou recebendo papéis complexos. Franco praticamente desapareceu de projetos mainstream após admissões públicas. Simon voltou a Baltimore com The Plot Against America. Pelecanos continua roteirizando.
Para espectadores que persistiram até o fim, The Deuce ofereceu momentos de brilhantismo. Sequências poderosas sobre AIDS nascente, gentrificação, e morte do cinema de rua pontuavam as temporadas. Mas esses momentos se perdiam entre decisões questionáveis que minaram o impacto geral.

Conclusão: lições de uma série que perdeu o rumo
The Deuce representa um caso fascinante de série que tinha tudo para funcionar, mas se sabotou. Talento criativo excepcional, recursos abundantes e tema relevante não garantiram sucesso artístico ou cultural. O projeto se afogou em suas próprias ambições mal direcionadas.
A principal lição é que autenticidade não equivale a saturação. Mostrar algo repetidamente não torna a representação mais verdadeira, apenas mais cansativa. Realismo requer seleção cuidadosa, não documentação exaustiva. The Deuce confundiu quantidade com qualidade.
A controvérsia Franco comprovou a importância de alinhar mensagem com mensageiros. Impossível separar completamente arte de artista quando o artista personifica problemas que a arte critica. A dissonância cognitiva era grande demais para as audiências ignorarem.
Conclusivamente, The Deuce provou que televisão de prestígio não pode mais esconder exploração atrás de reivindicações artísticas. Audiências contemporâneas exigem não apenas boas histórias, mas práticas éticas de produção. A era de diretores tirânicos e ambientes tóxicos disfarçados de necessidade criativa está terminando. Pelo menos é o que se espera.
Se você, caro leitor, acompanhou The Deuce, vale revisitar com olhar crítico. O que funcionou? Onde a série tropeçou? Como suas falhas informam o que esperamos de dramas contemporâneos? As melhores lições vêm tanto de sucessos quanto de fracassos nobres. The Deuce certamente foi o segundo caso, concluímos nós. Esta também é a sua conclusão?
Em resumo: você (se assistiu à série) acredita que The Deuce exagerou nas cenas explícitas ou elas eram necessárias para contar essa história?
Deixe sua opinião e continue a conversa sobre os limites entre arte e exploração na televisão moderna tão presente a partir do streaming.
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