
Ao contrário do filme Viver, sobre o qual falamos em outra análise, Sociedade dos Poetas Mortos ensina como não se deve viver. Ou, em resumo, Sociedade dos Poetas Mortos mostra a repressão assassina, destruidora de mentes, de sonhos e de vidas.
Aliás, repressão e autoritarismo, além de hipocrisia, estão entre esses destruidores da alegria de viver nessa produção cinematográfica que retrata como era (ou ainda é) estudar numa instituição como a Welton Academy.

Nesse internato, que aceita apenas homens, os pais de alunos se propõem a pagar altas mensalidades para que os filhos optem por deixar exatamente para os pais a decisão sobre qual carreira profissional os filhos devem seguir.
Lembra-nos uma anedota muito comum, mesmo passadas algumas décadas, em que os pais diziam: “Meu filho pode ser o que quiser ser, desde que seja advogado, médico ou engenheiro”.
Logo de início o filme deixa evidente o que significa estar matriculado (ou enclausurado) na Welton Academy, cujas palavras de ordem são honra, tradição, excelência e disciplina.

As opiniões e escolhas dos alunos não interessam, pois o sistema de ensino é direcionado apenas para que eles obedeçam.
E as imposições autoritárias e excessivamente rígidas começam a ser desafiadas pela contratação do novo professor, por sinal um ex-aluno da escola.
O professor é John Keating (interpretado por Robin Williams), que adota uma forma de ensino literalmente contrária àquela imposta pela direção repressora da escola.

A única forma de os alunos tentarem manter uma convivência menos massacrante é a de combinarem, entre eles mesmos, algumas reuniões de estudo em seus alojamentos, onde têm a chance de conversar sobre vários assuntos (inclusive possíveis paixões comuns na fase da adolescência) sem estarem totalmente sob a vigilância do rígido diretor da escola.
A chegada do professor John Keating coloca em xeque tudo aquilo que os alunos costumavam presenciar até então.
Keating, que gosta de ser chamado de capitão, meu capitão, adota o lema Carpe Diem, uma expressão de origem latina que pode ser traduzida como aproveite o dia.
Com sua didática desafiadora para aquela escola ultraconservadora dos Estados Unidos, numa história que se passa no ano de 1959, Keating ensina aos alunos que eles devem adotar a autoconfiança e viver intensamente cada dia.
E, sobretudo, ensina-os a passarem a assumir quem realmente são, rejeitando imposições que sejam destinadas a direcionar para algo que eles não querem viver.
Professor de Inglês e de Literatura, Keating utiliza-se da poesia para transmitir aos alunos a noção do autoconhecimento e da liberdade, para se tornarem pessoas felizes, vivendo intensamente cada momento, uma vez que, afinal, tudo – inclusive a vida – um dia vai ter um fim.

A primeira de suas atitudes mais ousadas é a de pedir aos alunos que simplesmente rasguem as páginas de um livro que define poesia de forma equivocada. E todos eles rasgam as páginas, para ira posterior do diretor da escola, que irá substituir Keating, até que seja contratado outro professor.
A segunda ousadia é a de subir na mesa da sala de aula, e pedir aos alunos que façam o mesmo em suas carteiras escolares, porque ali, do alto, o mundo parece muito diferente.
Estando no alto (diz ele) a nossa perspectiva muda.

Embora estranhando, de início, os métodos do novo professor, os alunos começam a se afeiçoar a ele. E acabam descobrindo uma antiga publicação, pela qual ficam sabendo que o mestre frequentava uma tal de Sociedade dos Poetas Mortos, o que atiça a curiosidade de todos.
Eles interrompem a caminhada do professor, chamando-o pela alcunha predileta dele, para mostrarem a publicação e para perguntarem o que exatamente era aquela denominada sociedade dos poetas mortos.
A partir disso, os alunos, desafiando o rígido controle da escola, saem na calada da noite para uma caverna, onde passam a se reunir a fim de recitar poesias e para, finalmente, poderem conversar livremente sobre o que lhes vêm à mente, sem a rigidez imposta pela direção do educandário.

Um certo dia, Neil, um dos alunos mais destacados, descobre seu talento para a arte dramática e passa a frequentar um grupo de teatro, onde consegue o papel de destaque.
No dia da apresentação, os colegas comparecem em peso ao teatro e, juntamente com o professor, aplaudem efusivamente o desempenho de Neil.
É a partir desse momento que o filme ganha novo ritmo e se torna mais dinâmico e instigante. E começa a provocar maior indignação dos espectadores, diante do desenrolar da história.

A razão é que o pai de Neil, extremamente repressor, acaba aparecendo durante a apresentação teatral e, mesmo diante do sucesso do filho, efusivamente aplaudido pela plateia, não demonstra a menor emoção.
Ao contrário disso, já em casa, proíbe terminantemente Neil de continuar frequentando o teatro. E impõe que ele irá cursar medicina, sempre repetindo que fez “grande sacrifício” pela educação do filho e que não irá tolerar sua opção de seguir a carreira teatral.
Atônito e revoltado, Neil (que havia escutado o professor sobre a posição do pai em relação à sua escolha, sendo encorajado a seguir adiante naquilo que o fazia feliz) tenta reagir.
Mesmo invocando o direito de se manifestar, lembrando que havia tido um ótimo desempenho e destaque logo na estreia, Neil não consegue enfrentar a postura que personifica no pai a imagem da repressão assassina de sonhos. E Neil, mais uma vez, se cala.
Desesperado, diante da insensibilidade corrosiva do pai repressor, Neil toma a atitude que lhe parece a única saída, numa irreversível escolha que, afinal, leva o pai a reconhecer seu erro quando já não é mais possível corrigi-lo.
Sociedade dos Poetas Mortos (vídeo acima/clique no banner) mostra a repressão assassina que, infelizmente, perdura até hoje entre muitos que assumem posturas equivocadas diante da diretriz de colocar limites a determinados comportamentos dos filhos.
A completa falta de diálogo entre o filho e o pai, que não admite nenhuma contestação à sua forma impositiva de proceder, simboliza os erros que marcam a relação em família ainda em muitos lares, infelicitando o caminho de muitos jovens.

É como se fosse melhor ser um mau médico do que um excelente ator, pelo simples fato de a pessoa não reconhecer, em si própria, a menor propensão por uma carreira que não lhe desperta nenhuma vontade ou interesse.
Apesar da narrativa linear de Sociedade dos Poetas Mortos, que ganha maior dinâmica quando dá enfoque aos sonhos do personagem Neil, o filme deixa muitas lições para quem precisa aprender o quanto é destruidora a repressão assassina, ainda hoje defendida por monstros que insistem em perpetuá-la.
Sociedade dos Poetas Mortos (Dead poets society).
Produção: EUA – 1990
Direção: Peter Weir
Roteiro: Tom Schulman

No Elenco:
Robin Williams: John Keating
Ethan Hawke: Todd Anderson
Robert Sean Leonard: Neil Perry
Gale Hansen: Charlie Dalton
Josh Charles: Knox T. Overstreet
Dylan Kussman: Richard
Allelon Ruggiero: Steven Meeks
James Waterston: Gerard J. Pitts
Norman Lloyd: Sr. Nolan
Kurtwood Smith: Sr Perry
Lara Flynn Boyle: Ginny Danburry
Alexandra Powers: Chris Noel
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