Brasil 70 A Saga do TRI

Brasil 70, a saga do Tri é a atração da Netflix que, não por coincidência, estreou poucos dias antes do início da Copa do Mundo de 2026.

É uma boa jogada (sem trocadilho) da Netflix para quem quer curtir a saudade dos campeões de 1970, apesar das tensões e agruras da própria seleção em um período político difícil para os brasileiros, devido ao golpe militar de 1964.

Numa perspectiva mais ampla, pode-se dizer que há histórias que já foram contadas tantas vezes que parecem imunes a novas perspectivas.

A Copa do Mundo de 1970 é uma delas. O Brasil, o México, Pelé, o tricampeonato — imagens que atravessaram décadas e se solidificaram no imaginário nacional quase como mitologia. E é exatamente aí que Brasil 70 – A Saga do Tri, essa nova minissérie da Netflix produzida em parceria com a O2 Filmes, encontra seu maior desafio — e seu maior trunfo.

Ao invés de reverenciar o que já se sabe, a produção escolhe o caminho mais difícil e mais honesto: mostrar o que teria acontecido fora do campo.

Brasil 70

O time considerado o melhor da história

Para quem não viveu 1970, vale o contexto. A Seleção Brasileira que foi ao México era formada por uma geração que até hoje não encontrou paralelo: Pelé, Tostão, Jairzinho, Gérson, Rivellino e Carlos Alberto Torres formavam um coletivo ofensivo de rara genialidade. O time marcou 19 gols em seis partidas. Na final, goleou a Itália por 4 a 1, com o gol de Carlos Alberto Torres sendo considerado um dos mais belos da história do futebol mundial.

Era a terceira conquista do Brasil, que ficava definitivamente com a Taça Jules Rimet. Uma conquista que, até hoje, muitos consideram a mais bela de toda a história da Copa do Mundo.

A série: cinema com consciência política

Brasil 70 não é um especial comemorativo. É, antes de tudo, uma superprodução com energia cinematográfica que demonstra de forma clara que o tricampeonato aconteceu sob as sombras mais pesadas da ditadura militar brasileira — e não tem medo de dizer isso.

O regime usou a Seleção como vitrine ideológica, transformando a conquista em símbolo de “ordem, força e progresso”. A série entra nesse terreno sensível: como separar a beleza do futebol do contexto político que o instrumentalizou? A resposta dada pela produção foi não separar as coisas e mostrar o contexto histórico — e isso eleva a narrativa acima do que seria um simples documentário de glórias.

“A produção entende que o tricampeonato mundial também aconteceu sob as sombras mais pesadas da ditadura militar brasileira. O resultado é uma superprodução vibrante, política e emocionalmente envolvente.” (Rolling Stone Brasil)

A ficha técnica

  • Criação e roteiro: Naná Xavier e Rafael Dornellas
  • Direção geral: Paulo Morelli e Pedro Morelli
  • Episódios adicionais: Quico Meirelles
  • Produção: Netflix + O2 Filmes (de Fernando Meirelles, diretor de Cidade de Deus)
  • Gravações: Brasil (Carapicuíba, SP) e México

A O2 Filmes é uma das produtoras mais respeitadas do Brasil, responsável por obras de repercussão internacional. Ter Fernando Meirelles na produção executiva é garantia de um olhar cinematográfico rigoroso.

Os atores representando os atletas
Os atores representando os atletas

O elenco — cada papel, um desafio

  • | Ator | Personagem |
  • | Lucas Agrícola | Pelé |
  • | Rodrigo Santoro | João Saldanha (técnico) |
  • | Bruno Mazzeo | Zagallo (técnico) |
  • | Marcelo Adnet | Eusébio Teixeira |
  • | Gui Ferraz | Jairzinho |
  • | Ravel Andrade | Tostão |
  • | Daniel Blanco | Rivellino |
  • | Caio Cabral | Carlos Alberto |
  • | Fillipe Soutto | Gérson |
  • | Maicon Rodrigues | Paulo Cézar Caju |
  • | Hugo Haddad | Félix |
  • | Victor Salomão | Dadá Maravilha |

Rodrigo Santoro constrói um João Saldanha marcante — o técnico comunista que bateu de frente com o regime militar e foi demitido antes da Copa.

Mesmo após sair, Saldanha aparece como comentarista das partidas, funcionando como uma espécie de consciência crítica da narrativa.

Bruno Mazzeo, por sua vez, entrega um Zagallo obstinado, que assumiu o desafio improvável de montar uma seleção com cinco camisas 10 — e venceu.

Os bastidores — onde mora a história real

A “peneira” dos atores

Esta é uma das histórias mais curiosas da produção: os atores não precisavam apenas saber atuar. Precisavam saber jogar bola. O processo de seleção do elenco funcionou literalmente como uma peneira de futebol.

O diretor Pedro Morelli foi categórico no Rio2C: “Não tem dublê. Os atores jogavam de verdade. Dublê era usado apenas em planos muito gerais. Quando o público vê de perto, é o ator.”

Isso significa que cada lançamento, cada drible, cada gol filmado em close — foi executado pelos próprios atores, após meses de treinamento específico.

Lucas Agrícola e o peso de ser Pelé

Viver Pelé foi uma responsabilidade diferente de qualquer outro papel. Pelé é, ao mesmo tempo, um ícone global, um pai de família, um jogador de 29 anos no auge em 1970, e um homem pressionado tanto pelo regime quanto pela própria expectativa do mundo.

Lucas Agrícola, estreante no audiovisual profissional, passou três meses no processo seletivo antes de conquistar o papel. Com fisionomia semelhante à do rei, ele precisou ir além da imitação e mergulhar no estado emocional de Pelé naquele momento — vindo de uma Copa de 1966 traumática, onde o Brasil havia sido eliminado na fase de grupos e o craque acabou saindo com a camisa rasgada.

A família de Lucas Agrícola acompanhou a jornada de perto. O pai do ator, que sempre sonhou que Lucas fosse jogador de futebol, chorou ao ver o filho em campo com a camisa 10 da Seleção de 1970. O ator relatou ao Estadão: “Não consegui isso para ele. Mas eu acho que isso aqui (representar Pelé) foi melhor que ser jogador. Confesso que ele ficou muito feliz, chorou muito.”

Filmagens no Brasil e no México

A produção cruzou fronteiras literalmente. As cenas nos estádios foram gravadas em Carapicuíba (SP), onde o Estádio Niterói foi transformado no lendário Estádio Azteca, no México — cenário da final de 1970. A recriação envolveu reconstrução minuciosa de cenários, figurinos da época, efeitos especiais e até recreação de torcida para capturar a atmosfera do torneio mais de 50 anos depois.

Jornalistas convidados pela Netflix que visitaram o set em agosto de 2025 relataram uma cena particularmente impactante: a gravação da comemoração do tricampeonato, com a torcida invadindo o campo logo após o grito de “ação”.

O que a série diz que vai além do futebol

Brasil 70 é, no fundo, uma série sobre identidade nacional em tempos de pressão. Sobre como um grupo de homens carregou o peso de um país inteiro nas chuteiras — um país que, ao mesmo tempo, vivia sob censura, perseguição política e medo. O futebol como válvula de escape. O título como instrumento de propaganda. A glória como algo simultaneamente genuíno e apropriado.

A série não resolve essa tensão. Ela a habita — e essa é sua escolha mais inteligente.

“A série melhora quando entende que o drama não está apenas na partida, mas no país que assiste a ela.” (Revista Bula)

Tetra

E por falar em Copa… Tetra: Acreditar de Novo também está na Netflix

Para os que querem continuar a jornada pelas Copas do Brasil, a Netflix lançou, no dia 7 de junho de 2026, o documentário Tetra: Acreditar de Novo, sobre a conquista de 1994 nos Estados Unidos — 24 anos depois do tri de 1970.

Com imagens inéditas gravadas pelos próprios jogadores em fitas cassete (pelo goleiro Gilmar Rinaldi e pelo lateral Jorginho) e depoimentos de Romário, Bebeto, Dunga e até de adversários italianos, o documentário fecha um ciclo: mostra o Brasil voltando ao topo, desta vez sem Pelé, mas com a mesma fome de título.

Juntos, Brasil 70 e Tetra formam uma espécie de díptico cinematográfico sobre o futebol brasileiro — e chegam ao streaming no momento perfeito: às vésperas da Copa do Mundo de 2026.

Brasil 2002

Ainda sobre o futebol vitorioso do Brasil, a Netflix apresenta o documentário Brasil 2002, os Bastidores do Penta, com imagens inéditas e entrevistas com os jogadores.

Mas não para por aí quando o tema é futebol. A plataforma inclui, entre outros títulos, a minissérie Ronaldinho Gaúcho e a série de 9 episódios Campeões da Copa, com as histórias dos atletas e países que se consagraram em campeonatos mundiais.

Como se diz popularmente, para quem gosta de futebol e de esportes de um modo geral, temos um prato cheio.

Sobre o Autor

Gerson Menezes
Gerson Menezes

O objetivo do Autor não é o de concentrar-se na linguagem rebuscada do tecnicismo cinematográfico, mas de apresentar o que há de melhor (ou de pior) na filmografia nacional e internacional, e concentrar-se no perfil dos personagens. As análises serão sempre permeadas pela vertente do humanismo, que, segundo o Autor, é o que mais falta faz ao mundo em que violência e guerra acabam compondo o cenário tanto dos filmes como da realidade de inúmeros países, entre os quais o Brasil.

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